MAR DE LAMA

Artigo publicado em 03.2001 no jornal Ombro a Ombro.

As duas derrotas impostas no Congresso (senador Barbalho e deputado Aécio), pela administração FHC ao senador ACM, possuem um significado muito mais amplo do que o veiculado pela mídia amestrada. O senador ACM é um legítimo representante das oligarquias brasileiras, herdeiras das "capitanias hereditárias" em que se encontra dividido o Brasil. Elas foram cooptadas pelos representantes do capital transnacional no país, para possibilitar a implementação do modelo neoliberal, cabeça de ponte da globalização. O sistema, implantado em sua totalidade em 1994, contava com dois candidatos, justamente os mais votados, para evitar qualquer surpresa. Ganhou o preferido (surpresa!!!) FHC, obtendo o 2 lugar o candidato Lula, também membro integrante do Diálogo Interamericano, órgão que traça as diretrizes a serem adotadas pelos países das Américas.

Nas eleições de 98, para minimizar qualquer risco, o sistema veio com três candidatos. Os dois já citados e o Sr. Ciro Gomes, o qual também foi membro do referido Diálogo Interamericano e ocupou, na preferência do eleitorado, o lugar do Dr. Enéas, que tinha sido o terceiro mais votado nas eleições presidenciais de 94. O esquema do sistema para 2002 pretende ficar imune a qualquer risco, vindo possivelmente com quatro candidatos. O Sr. Lula e o Sr. Ciro, representando uma falsa oposição, mas pertencentes ao sistema, um representante direto, provavelmente o ministro Serra ou o governador Tasso e outro ,por fora, talvez o governador Garotinho, também ligado aos "donos do mundo".

Assim, qualquer um que ganhe estará subordinado ao sistema. Candidatos de oposição, além do Dr. Enéas, duramente criticado e discriminado pela mídia, só o governador Itamar Franco, pelo PMDB. Ora, esta seria uma candidatura perigosa, devido ao tempo de TV (horário gratuito), além do poder da máquina de um Estado como Minas Gerais e do fato de o mesmo já ter sido presidente da República. Desta forma, era necessário somar o PMDB, alijando o lado nacional e possuidor de votos do PFL. Anulando o senador ACM, os "donos do mundo" estão objetivando impedir a candidatura do governador Itamar, colocando na chapa comandada pelo PSDB um candidato a vice-presidente oriundo do PMDB, pertencente ao sistema. O PFL, sem ACM, reduz-se eleitoralmente a muito pouco, passando a ser mero coadjuvante do processo, passando a ser liderado também por representantes do sistema. Tudo certo. Só esqueceram de combinar com o senador ACM.

Ao sentir-se traído, ACM reagiu da forma prevista. Bateu forte em toda a liderança da atual administração, denunciando o que todos os brasileiros informados sabem. Ninguém constrói patrimônios como os apresentados pelos denunciados, licitamente, com trabalho. Existem autoridades honestas, obrigadas a conviver com "criminosos do colarinho branco", a exemplo do juiz Lalau, fingindo desconhecer o óbvio.

A questão ética colocada pela mídia amestrada, tentando desmoralizar as denúncias de ACM, com o argumento de que ele sabia antes de tudo e não denunciou, é verdadeiro, mas não invalida a gravidade das denúncias. Se, de fato, o senador, no contexto de uma CPI, falar aquilo que sabe sobre os bastidores da atual administração FHC, em especial a reeleição e o processo de privatização, apresentando documentação hábil, o mar de lama represado transbordará, provocando a desestabilização da atual administração. E pensar que o PT e o PPS, classificados como parte da oposição, ao invés de procurar aprofundar a elucidação da onda de corrupção, queria pedir a cassação do mandato do senador ACM. Eram "tolinhos" ou cooptados? Ainda bem que mudaram de idéia.

A Nação exige a apuração de todas as denúncias, bem como a punição exemplar de todos os infratores, estejam onde estiverem, sejam quem for. Por muito menos, o Sr. Collor de Mello foi derrubado, acertadamente.

Prof. Marcos Coimbra

Professor Titular da Universidade Candido Mendes, Professor na UERJ e Conselheiro da ESG.

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